SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

Política seletiva

14/10/2020 - Maria Betânia dos Santos Chaves

Quando comecei a pesquisar e estudar sobre os direitos das mulheres e sobre o feminismo, passei a prestar mais atenção ao vocabulário das pessoas. As palavras que escolhemos utilizar falam de nós mesmos e do que está acontecendo, portanto, a linguagem é ferramenta poderosíssima que não só provoca mudança, mas também toma para si a mudança que é gestada em uma comunidade ou sociedade. Auxiliando meu marido na edição deste jornal, me deparei com, mais especificadamente nas estatísticas de palavras usadas nos planos de governo dos à prefeito da minha cidade, São José do Rio Pardo-SP e de cidades da região. É decepcionante como a maioria dos candidatos sequer citaram as palavras negras e mulheres em seu plano de governo, não incluíram o que chamamos de minoria. Auto lá, minoria, aqui, não quer dizer pouca quantidade, significa minoria de “voz”. Mesmo que existam mais pessoas "não-brancas", mesmo que exista mais mulheres, a maioria esmagadora de quem decide como as coisas vão ser são homens brancos. Enfim, mulheres, negras, pessoas LGBT+, pessoas com necessidades especiais e qualquer um que não seja do considerado” normal-padrão”, podem até ter o dobro de pessoas em quantidade no mundo, mas continua sendo um grupo minoritário porque não tem o mesmo poder, privilégios e status sociais e, pelo jeito, alguns candidatos não tem intenção alguma de mudar ou tentar mudar, um pouquinho, essa “tradição”. Dos XX candidatos a prefeito, X mal chegaram a citar o termo “mulher” em seus planos de governo e apenas X apresentam propostas concretas em relação a nós. Leitoras, nós mulheres devemos ficar de olho em quem vamos votar para governar nossa cidade nos próximos quatro anos. Eu não voto em quem sequer lembrou de nós em seu planejamento. Vivemos em uma sociedade pensada, baseada e totalmente construída sobre o masculino, e isso é justamente o que se manifesta na linguagem de alguns candidatos em seus planos de governo e campanhas eleitorais. Em pesquisa no site do Tribunal Superior Eleitora – TSE, verifiquei que somos 85.034 eleitoras, enquanto os eleitores são 80.003, totalizando as cidades citadas na edição passada deste jornal. Somos 5.031 mulheres eleitoras a mais que os homens eleitores. É um número significativo e mais do que mostra que podemos fazer a diferença na hora de escolher nosso representante municipal. De acordo com o site do TSE, em São José do Rio Pardo há eleitoras 22.245 e eleitores – 20.292; Mococa há eleitoras 27.175 e eleitores 25.692; Tapiratiba há eleitoras 5.342 e eleitores 5.084; Casa Branca há eleitoras 10.795 e eleitores 9.862; Divinolândia há eleitoras 4.833 e eleitores 4.620; Itobi há eleitoras 3.047 e eleitores 3.212; Caconde há eleitoras 7.363 e eleitores 7.135; São Sebastião da Grama há eleitoras 4.234 e eleitores 4.106. Apesar de a representação feminina estar longe de ser o ideal no cenário político, alguns poucos candidatos à prefeito definiram mulheres como suas vices, porém não houve a candidatura de representantes femininas ao principal cargo das prefeituras, o de prefeita. Nós, mulheres temos ocupado espaços na sociedade e ampliado cada vez mais o debate a respeito de questões que foram silenciadas durante anos. A luta não pode parar e temos que eleger representantes que defendam nossos direitos, que defendam e tenham planejamento de políticas públicas para as comunidades mais vulneráveis. Apesar do avanço das políticas públicas para as mulheres, ainda se encontra muito vagarosa frente a cultura machista baseada no Brasil. Mesmo em meio as previsões constitucionais vivenciamos um aspecto social marcado pela desigualdade, na limitação de classes, gênero, aspectos sociais e acesso a serviços públicos. Há quem discorde, mas as políticas públicas limitam o acesso de certas classes, inserindo as mulheres nesses grupos de maior vulnerabilidade. São os homens que decidem nossa política e precisamos de um esforço para mostrar que não é isso. Política tem que ser para todo mundo, para mais mulheres e mais negros. Hoje, como maioria em quantidade, podemos fazer a diferença na hora de votar e, juntas, eleger quem se lembrou de nós! Eu não voto em candidato machista! E você?

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.


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