SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

O rico vigilante

14/10/2020 - Isabel Scoqui

O desejo de ser rico é bastante comum. Em geral, ele se origina do egoísmo e da vontade de gozar dos bens do mundo em regime de ócio e saciedade. Mas há quem o justifique com a ideia de dar conforto e segurança para os seus. A respeito desse sonho tão comum, há uma narrativa bem esclarecedora. Conta-se que um homem honrado animou-se com o propósito de enriquecer para beneficiar sua família. Aflito por alcançar seus fins, envolveu-se em várias empresas. Por vinte anos consecutivos, ajuntou moeda sobre moeda, formando o patrimônio de alguns milhões. Quando se deu por satisfeito, reconheceu que todos os quadros da própria vida se haviam alterado. O lar, dantes simples e alegre, adquirira feição sombria. A esposa fizera-se escrava de mil obrigações destinadas a matar o tempo. Os filhos cochichavam entre si a respeito da herança que a morte do pai lhes reservaria. Os vizinhos, acreditando-o completamente feliz, cercaram-no de inveja e ironia. Os negociantes visitavam-no a cada instante, propondo-lhe transações criminosas ou descabidas. Servidores o bajulavam, com declarado fingimento, quando ao lado de seus ouvidos. Em razão de tantos distúrbios, era compelido a transformar a residência em uma fortaleza. Sobrava-lhe tempo, agora, para registrar as moléstias do corpo, cada vez mais presentes. Em poucas semanas de observação, concluiu que a fortuna trancafiada no cofre era motivo de crises sem fim. A partir daí, passou a libertar suas enormes reservas. Junto dele, amigos e vizinhos passaram a ter as bênçãos do serviço e do bom ânimo. Desde o primeiro sinal de semelhante renovação, a esposa fixou-o com estranheza e revolta. Os filhos odiaram-no e os próprios beneficiados o julgaram louco. Todavia, o milionário vigilante passou a possuir no domicílio um santuário aberto e alegre. Essa história pitoresca simboliza a necessidade do equilíbrio na vida humana, em especial no que tange aos bens materiais. Toda riqueza que corre, à maneira das águas cristalinas da fonte, é uma bênção viva. Já a riqueza em inútil repouso converte-se em poço venenoso de água estagnada. Os bens do mundo são instrumentos e não a finalidade do existir. Qualquer que seja a posição do homem, ele enfrenta problemas e desafios. Na busca de bens cada vez mais vastos, não compensa esquecer a essência do existir. Família, amigos e a própria dignidade constituem o tesouro mais importante que se pode ter. Se a riqueza tivesse de ser um obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem, Deus, que a distribui, teria colocado nas mãos de alguns um instrumento fatal de perdição, o que repugna a razão. A riqueza é, sem dúvida, uma prova mais arriscada, mais perigosa que a miséria, em virtude das excitações e das tentações que oferece, da fascinação que exerce. É o supremo excitante do orgulho, do egoísmo e da vida sensual. É o laço que mais poderosamente liga o homem à terra e desvia seus pensamentos do céu. Produz tamanha vertigem, que vemos quase sempre os que passam da miséria à fortuna esquecerem-se rapidamente da sua antiga posição, bem como de seus companheiros, dos que o ajudaram, tornando-se insensíveis, egoístas e fúteis. Mas, por tornar o caminho mais difícil, não se segue que o torne inviável, e não possa vir a ser um meio de salvação nas mãos do que a sabe utilizar, como certos venenos que restabelecem a saúde, quando empregados a propósito e com discernimento. Fonte – Redação do Momento Espírita e trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI



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