SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

Síndrome do sapo fervido

21/10/2020 - Maria Betânia dos Santos Chaves

Às vezes aguentamos situações e pessoas prejudiciais por um tempo muito prolongado, só porque seguimos o ditado tácito que diz que “temos que aguentar quando não há outra solução”. Para refletirmos sobre isso, vou compartilhar com vocês uma metáfora sobre a Síndrome do Sapo Fervido. Alguns estudos biológicos provaram que um sapo colocado no mesmo recipiente com a mesma água da sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que a água é aquecida, até que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento da temperatura, ele ajusta a sua temperatura corporal com a da água. Justo quando a água está prestes a alcançar o ponto de ebulição ela fica quente demais e o sapo não consegue mais se adaptar. É quando ele decide saltar. Ele tenta, mas é incapaz de fazê-lo, pois perdeu toda a sua força ajustando a temperatura corporal. Logo, o sapo morre fervido. Por outro lado, outro sapo que seja colocado neste recipiente, já com a água fervendo, salta imediatamente para fora. Meio tostado, mas vivo. O que matou o primeiro sapo? Pense nisso! Sei que muitas pessoas vão dizer que foi a água fervente, mas, na verdade, o que matou o sapo foi sua própria incapacidade de decidir quando saltar. Mas Maria, o que isso tem a ver com o ciclo vicioso da violência contra a mulher? Pois bem, temos vários “sapos fervidos” por aí. São aquelas mulheres que não percebem as mudanças que lhe colocam em situação de risco, acham que é só dar um tempo que tudo se resolve e permanecem naquela repetição infinita de tensão, agressão e reconciliação. Estão prestes a “morrer”, porém ficam boiando, estáveis e impávidas, na água em que se aquecem a cada minuto. Acabam morrendo sem ter percebido as mudanças e reagido a tempo contra elas. Muitas mulheres que vivem relacionamentos abusivos se perguntam porque permanecem nessa situação, e não conseguem um fim, ou sentem-se mal, mas ao mesmo tempo têm a sensação de que já se adaptaram à violência. Outras só percebem que estavam num relacionamento abusivo quando saem dele. Muitas de nós vivemos em relacionamentos abusivos e o agressor é tão manipulador que faz com que nos sintamos erradas sobre as situações em que somos vítimas. Vale a pena assistir à série da Netflix chamada “Bom dia, Verônica”. Um dos personagens é um policial manipulador que agride sua esposa de diversas formas, e a mesma diz insistentemente que a culpa é dela. Não vou dar spoiler e contar o que acontece a essa mulher, que é totalmente controlada pelo companheiro. Chega a ser tanto que seu organismo passa a reagir, de alguma forma, às agressões. Assim como o sapo fervido, são as pessoas que se acomodam com situações destrutivas, não querem sair delas, acreditam em milagres ou acreditam que não há outra solução por depender financeiramente do parceiro. É por esse e outros motivos que precisamos de mais projetos de capacitação profissional para mulheres. Talvez você aguente as situações até se queimar, sem nunca ter percebido antes a necessidade de saltar a tempo para se salvar. Todos nós temos que nos ajustar em relação a pessoas e a situações, mas temos que estar seguros a respeito de quando é hora de se adaptar e quando devemos seguir em frente. Existem momentos nos quais precisamos enfrentar a situação e tomar as atitudes apropriadas. Se permitirmos que as pessoas nos explorem física, emocional, financeira, espiritual ou mentalmente, elas vão continuar fazendo isso. Vamos decidir o momento certo de saltar! Vamos saltar enquanto ainda temos forças. Penso que toda semana que escrevo eu possa estar ajudando uma mulher oprimida. Pode ser que uma mulher que leia “Escreva, Maria. Escreva” possa estar criando coragem para sair de um relacionamento abusivo, criando coragem para denunciar e forças para seguir em frente. Espero que os meus textos estejam influenciando para o bem de uma mulher, levando conhecimento de seus direitos e instigando a reflexão de sua situação. O mundo mudou! Pulem fora antes que a água ferva! Chega uma hora em que é preciso pular pra fora dessa água que queima, chutar o balde e dizer “BASTA!!!”. Nem que seja dizer um BASTA à sua inércia, a essa mania de ficar esperando que o outro mude…

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.


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