SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

Querem nos ensinar a ser mulher

14/10/2020 - Maria Betânia dos Santos Chaves

A sociedade sempre impõe um modo de ser mulher. Num livro que comprei recentemente, chamado “Sejamos todos feministas”, a autora, Chimamanda Ngozi Adichie, conta que, em uma apresentação de seu romance “Hibisco roxo”, no qual, entre outras coisas, o protagonista bate na mulher, um jornalista nigeriano (a apresentação era na Nigéria), amável e bem-intencionado, se aproximou dela e lhe disse que queria dar um conselho. Segundo a autora “ele comentou que as pessoas estavam dizendo que meu livro era feminista. Seu conselho, disse, balançando a cabeça com ar consternado, era que eu nunca, nunca me intitulasse feminista, já que as feministas são mulheres infelizes que não conseguem encontrar um marido. Então decidi me definir como feminista feliz”. No relato acima mencionado há várias crenças sociais que dão conta das expectativas sociais que são necessárias cumprir para ser (ou não ser) uma mulher. A primeira é que estar ao lado das mulheres é errado. Ser feminista é quase uma blasfêmia. A segunda é que é ruim não conseguir marido, com todo o significado de “conseguir” ou “encontrar”, porque, para isso, é necessário procurar. Por tudo isso poderíamos dizer que o julgamento encoberto na mente desse senhor (o jornalista nigeriano) e da maioria dos homens é que as mulheres procuram marido, e que uma mulher que não tem um homem não pode ser feliz. A terceira crença encoberta é que os homens sabem o que é melhor para as mulheres, tanto é que o tal jornalista acreditou que deveria aconselhar a autora, sem mesmo pedir permissão a ela, porque, claro, ele “tem o poder da verdade”. Segundo o patriarcado, uma mulher que não tem marido é uma mulher de todos os homens, bem como, em alguns casos, é julgada por outras mulheres como sendo perigosa por poder chegar a roubar seus homens. Há mais ou menos um mês me deparei com uma polêmica envolvendo o Google. Se você digitasse “mulher solteira” na referida plataforma, aparecia o significado: meretriz, cortesã, piranha e prostituta. Diante da polêmica, a cantora Luísa Sonza divulgou em suas redes sociais a sua indignação com a situação. Após a manifestação da cantora, o Google alterou o significado em sua plataforma, informando, ainda, que o responsável pelos significados apresentados seria o dicionário Oxford Languages. É revoltante, mas queria saber o que pensam disso as mulheres solteiras que vejo escrevendo em suas redes sociais que o feminismo só veio para atrapalhar o romantismo, vez que os homens, hoje em dia, estão com medo de “chegar” nas mulheres. Minha filha, homem de verdade sabe conquistar uma mulher sem ser ofensivo e vulgar. Sem falar que desde pequenas aprendemos que meninas e meninos ocupam os espaços de maneiras diferentes. Desde pequenas ouvimos de pessoas próximas “sente-se como uma mocinha”, “menina não grita”, “feche as pernas, senta direito”, todas essas “regras” para nos ensinar a nos comportar como meninas/mulheres. A vida adulta e a velhice de algumas mulheres nas sociedades patriarcais são degradadas quando deveria ser o contrário. Uma mulher na idade adulta tem muito mais ferramentas para se posicionar diante das questões da vida; pode até mesmo conectar-se com a beleza interna que talvez tenha ficado exilada na juventude porque o foco era o corpo, um corpo que, de todas as maneiras, envelheceu e continuará envelhecendo, porque não há coisa alguma que detenha a passagem do tempo. Cada uma de nós, mulheres, somos as únicas capazes de olhar para nós mesmas com compaixão e com a autoridade para destacar todo o potencial adquirido. Tomar como exemplo essa mulher que envelheceu com orgulho, para quem cada ruga é um sulco do que viveu e que, com a passagem do tempo, também foram sumindo os limites do que era politicamente correto, ou não, e hoje diz e faz o que pensa, sem prestar contas a ninguém, só para si mesma. A sociedade e a mídia precisam parar de dizer como devemos, ou não, agir para sermos o que já nascemos sendo, mulheres! Não vamos ser menos femininas por nossa cor preferida não ser o rosa ou por nossa risada ser alta. Isso é ser livre, é ter liberdade para escolher o que se gosta. Ter opinião é um direito, e agir da forma que quer, desde que sua atitude não seja proibida por lei, é libertador. Para concluir, vou deixar uma dica de um filme lindinho que assisti na semana passada, chama-se “Enola Holmes” e trata de uma menina inglesa que foi criada somente pela mãe, que não estava interessada em fazer da filha mais uma mulher que cresce para se casar e ter filhos; ao invés disso lhe ensina artes marciais, criptografia e ciência. O feminismo é a principal pauta levantada no filme, bem como nos faz refletir sobre a importância da força feminina. Por Maria Betânia dos Santos Chaves

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.


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