SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

Síndrome do desamparo aprendido

02/11/2020 - Maria Betânia dos Santos Chaves

“Como pode uma pessoa mudar de comportamento de um momento para outro?” “Como é possível que alguém tão gentil e educado seja capaz dos piores ataques de violência?” “Estávamos tão bem que até pensei que nunca mais ele iria repetir aqueles tapas, chutes e socos que costuma dar.” Estes são relatos e questionamentos de quem está dentro de um relacionamento que vivencia as fases do ciclo da violência. A violência não é um acontecimento linear. Ela é um processo cíclico e contínuo que costuma ser composto por fases que preparam o terreno para a próxima agressão. Quando ela ocorre no ambiente doméstico, sua ocorrência é silenciada e as vítimas vivenciam o medo e a dor de forma solitária. No entanto, cabe salientar que a agressão física é antecedida por violência do tipo verbal, tais como ameaças, xingamentos, humilhações, isolamento, controle, assédio, dentre outros. Esse tipo de violência apresenta um padrão cíclico, com atitudes que costumam se repetir, cada vez com maior violência e menor intervalo entre as fases. Para um melhor entendimento deste ciclo, seguem abaixo as fases e suas características: Fase I: Acumulação de tensão: o comportamento do agressor começa a se manifestar, com ameaças, agressões verbais ou destruindo objetos pessoais da vítima ou de casa. Nessa fase, a vítima acredita ter o controle da situação e tenta justificar a conduta do agressor, muitas vezes alimentando uma sensação de culpa pela situação. Assim, a vítima acaba por defender o parceiro e tenta justificar seu comportamento, inventando desculpas a respeito das “motivações” para tais atitudes. Fase II: Incidente de agressão: o comportamento do agressor se torna descontrolado, com agressões de grande intensidade, chegando à agressão física (pois como já escrevi em outra edição, existem outros tipos de violência além da física) ou vias de fato. A cada novo ciclo as agressões se tornam ainda mais graves. A vítima percebe não ter o controle da situação e pode passar a ter consequências mais graves. Fase III: Reconciliação ou lua-de-mel: o agressor mostra-se arrependido e busca fazer as pazes com a vítima. Torna-se atencioso e gentil, faz promessas de mudança e de uma vida feliz. A cada novo ciclo a duração dessa fase diminui. Para a vítima, há a sensação de se iludir, de ser enganada e de ter nova esperança de mudança no comportamento do agressor. A repetição do ciclo de violência pode levar a mulher ao que chamamos de “Síndrome do Desamparo Aprendido”, que é quando a mulher acredita que, não importa o que faça, é incapaz de controlar o que acontece consigo, e se torna desmotivada a reagir e completamente passiva. É nesse momento que o amparo de amigos e familiares conta muito. Ainda nos dias atuais existem casos de mulheres que sofreram violência e, na delegacia, quando foram registrar o boletim de ocorrência, foram obrigadas a voltar para a casa onde se encontra o agressor porque sua cidade não dispõe de casa-abrigo para seu acolhimento. É uma situação real e, cá entre nós, boletim de ocorrência não protege uma vida... Quantas de nós criamos coragem de denunciar e, ao voltarmos para casa, o agressor em liberdade tira a nossa vida? Quantas de nós morremos com uma medida protetiva em mãos? Romper o ciclo da violência no início, com os primeiros sinais, é fundamental para que a situação não se agrave, bem como é importantíssimo, também, o olhar do poder público para as deficiências existentes no sistema, desde o atendimento à vítima até a implantação de locais de acolhimento com a estrita vigilância do correto funcionamento desses lugares, incluindo atendimento humanizado e eficiente. O combate à violência contra a mulher é uma causa urgente que deve ser abraçada por toda a sociedade, exigindo maior envolvimento do Poder Executivo na busca da devida aplicação das leis que disciplinam o tema, pois somente quando as diretrizes da legislação forem atendidas e implementadas com efetividade nas diversas estruturas de atendimento da rede de proteção à mulher, teremos a esperança de reverter este atual cenário, alarmante e devastador, que nos faz perder milhares de mulheres por ano vítimas de violência de gênero. Por Maria Betânia dos Santos Chaves Publicado na edição 1639 de 24/10/2020

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.


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