SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

Você sabe o que é Infidelidade Financeira?

02/11/2020 - Thamir Marin

João, 37 anos, engenheiro, trabalha em uma multinacional. Há quase 5 anos se dedicando intensamente à empresa, ele finalmente é convocado pela Diretoria e recebe a notícia que tanto aguardava: foi promovido ao cargo de Gerente de Operações. João está muito feliz, afinal de contas, além do reconhecimento que recebeu e das novas responsabilidades, seu salário dobrará. Ele já começa a imaginar o que poderia fazer com o dobro da renda atual. Que tipo de coisas poderia comprar que antes não podia? Restaurantes e viagens que sempre quis acessar agora estão às suas mãos. No caminho para casa, João foi dirigindo seu carro, já pensando que estava na hora de trocar e comprar um novo modelo. Entre os seus pensamentos, enquanto dirigia, se perguntou como daria a notícia para sua esposa, Fernanda. Ela torcia por ele desde o início e a prosperidade chegando é sinal de melhoria para todo mundo, não é? Fernanda sempre falava em mudar para um apartamento maior, do jeito que ela sempre sonhou. Ela, advogada e 5 anos mais jovem que João, tinha acabado de entrar em um escritório de advocacia. Os dois faziam planos juntos para melhorarem de vida, sempre com o combinado que, independentemente da renda de um e do outro, os planos eram juntos e eles dividiriam as despesas proporcionalmente. Fernanda também falava em tantos outros sonhos que ela tinha e, agora, João poderia ajudar, pois seu salário havia dobrado de valor! Mas, no caminho, João começou a pensar que ele também queria muitas coisas e que pela primeira vez na vida ele teria a chance de conquistar. E ainda pensou que se não falasse exatamente qual seria a sua nova renda para Fernanda talvez não precisasse se mudar para um apartamento maior, por exemplo, e poderia comprar aquela moto que sempre quis. Então, quando chega em casa, João conta para Fernanda que conseguiu o cargo de Gerência, e que seu salário tinha aumentado, mas não como ele gostaria. Fernanda obviamente pergunta e João mente descaradamente: diz que teve um acréscimo de apenas 20% no seu salário. Fernanda, feliz por João, mas frustrada por saber que não poderia se mudar de apartamento apenas com esse aumento, dá um sorriso e diz: “parabéns João, você merece e esse é apenas o primeiro passo”. Os meses passam e João, agora com o salário em dobro, precisa esconder da sua esposa o dinheiro extra. Ele abre uma conta de investimento sem que a esposa saiba e começa a guardar uma parte do seu dinheiro ali. O restante vai para os mesmos lugares de antes. Ele e Fernanda dividem as contas da casa, investem uma parte e o restante vai para algum lazer, sem muito luxo. Algum tempo depois, João, que já acumulou algum dinheiro escondido de Fernanda, começa a comprar algumas coisas que sempre quis. Em um mês, comprou um relógio suíço caríssimo e disse para Fernanda que estava com 70% de desconto. No mês seguinte aparece com um celular novo e, para que Fernanda não o questione, João diz que foi um amigo que havia comprado nos EUA e trouxe pelo preço de custo. Os meses passam e João, a cada compra, inventa uma mentira. Na cabeça dele, está tudo bem. Em seu raciocínio, se ela não souber de nada não será prejudicial à Fernanda. São apenas coisas materiais que ele sempre quis ter e, afinal de contas, o dinheiro vem do trabalho dele, não é? João está errado. Manter segredos financeiros do seu cônjuge, como as compras secretas de João, é chamado de “infidelidade financeira”. Esse tipo de infidelidade pode causar tanto dano ao casamento quanto uma traição amorosa. Quando as mentiras sobre dinheiro vêm à tona - como costumam acontecer mais cedo ou mais tarde - muitas vezes levam a discussões sobre dinheiro, perda de confiança e até divórcio. João é um personagem fictício, mas esse tipo de história é real e muito comum. Em pesquisa realizada pelo National Endowment for Financial Education (NEFE), foi identificado que aproximadamente duas em cada cinco pessoas mentem sobre dinheiro ou ocultam detalhes financeiros do seu cônjuge. A infidelidade financeira assume muitas formas, algumas mais sérias do que outras, e entre as práticas mais comuns estão os “gastos em segredo”, como no nosso personagem. Na pesquisa do NEFE, 22% dos entrevistados disseram que ocultaram uma compra de seus parceiros. Outras práticas recorrentes são: esconder a fatura do cartão de crédito, esconder contas e até não falar que está endividado. Há muitos casos em que a dívida vai ficando cada vez maior e quando a família fica sabendo, já é tarde demais. Todos sofrem de alguma maneira. Os homens são mais infiéis financeiramente do que as mulheres. Nessa mesma pesquisa, 46% deles admitiram enganar suas parceiras sobre dinheiro de alguma forma, em comparação com 38% delas. “Evitar conflitos” é uma justificativa dada por muitos. E aí eu te pergunto: o fato de ter que mentir para evitar uma briga já não é um sinal de que há algo errado e que existe um descompasso entre vocês? De como enxergam e usam o dinheiro? A melhor maneira de evitar brigas, neste caso, seria os dois conversarem sobre suas intenções, prioridades, buscando chegar a um acordo. A maior cicatriz deixada pela infidelidade financeira é a perda da confiança, simples assim. Em um relacionamento as pessoas precisam ser capazes de contar umas com as outras, e isso não é possível quando um dos parceiros está mentindo ou escondendo informações importantes do outro. A infidelidade financeira nem sempre é tão evidente. O casal pode simplesmente não concordar sobre o quanto de suas vidas financeiras devem ser abertas um para o outro. Talvez um pense que os dois devam dividir todo o dinheiro igualmente, já o outro acredita que é importante que cada um cuide de suas contas. Não há nada de errado em manter alguns assuntos financeiros privados, desde que isso seja de comum acordo entre o casal. Por isso, falem abertamente sobre dinheiro no relacionamento de vocês. Garanto que vocês evitarão pequenos deslizes financeiros que, ao longo do tempo, podem se transformar em grandes problemas. Publicado na edição 1639 de 22/10/2020

Thamir Marin: Formado em Economia pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), trabalhou como analista de valores mobiliários pela Enfoque Informações Financeiras e como assessor credenciado a XP Investimentos. Atualmente trabalha como assessor de investimentos credenciado a corretora do Banco Safra e é sócio do escritório Öküs Capital Investimentos. Contato (19) 9.9195-7220.


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