SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

E quando o machismo vem da mulher?

31/12/2020 - Maria Betânia dos Santos Chaves

Recentemente, em nosso grupo de discussão foi abordado um assunto que sempre chamou a minha atenção e que afeta muitas de nós, estejamos em militância ou não, com muito mais frequência do que eu imaginava: como lidar com mulheres machistas?


Parece meio controverso, mas é verdade, há muitas mulheres machistas. E seus posicionamentos se manifestam das mais variadas formas e intensidades. Pode ser em família, em comentários que fazem a respeito de determinadas situações ou até mesmo quando evidenciam um certo desprezo pelas lutas que poderiam fazer valer muitos direitos a elas e a todas nós, pois muitas delas acham que o feminismo é uma luta ultrapassada, ou coisa de quem não tem o que fazer. Várias são as postagens em páginas no Facebook de mulheres ridicularizando o feminismo, bem como apoiando homens machistas em suas postagens, concordando com o fato deles diminuírem o gênero. Será que elas sabem que para que hoje elas pudessem estar dando opinião publicamente, uma mulher teve que lutar por isso? Um pouco de conhecimento valeria, a não ser que realmente não gostem dos direitos adquiridos, o que duvido muito.


Alguns fatores contribuem bastante para que ainda haja tantas mulheres com este tipo de pensamento, que vão desde a velha mídia estigmatizadora e suas ações que reforçam uma série de estereótipos, até a influência da família. Boa parte das mulheres machistas não se reconhece como tal, mas reproduz uma série de clichês que são fundamentados em ideias bastante preconceituosas. E quase sempre deixam de perceber que se há uma condição relativamente melhor para nós, mulheres, que a liberdade que temos atualmente e que as escolhas que hoje podemos fazer foram graças ao Movimento Feminista.


Mas quais seriam as atitudes que evidenciam o machismo em uma mulher? Tive experiências muito desagradáveis com o machismo oriundo de mulheres, até mesmo daquelas que me causavam admiração ou a quem manifestava apreço. E dentre tais experiências, as que mais se repetiram foram através de duras palavras. Palavras até mesmo de ódio, agressivas, ásperas. Palavras capazes de denegrir e de ferir. E foi difícil demais para mim aprender a lidar com isso – ainda é.
Quando uma mãe educa uma menina de maneira diferente da que educaria um menino, fazendo com que a filha sempre ache natural lavar a louça do jantar enquanto o irmão joga vídeo game na sala, por exemplo, é uma atitude machista. Quando pensamos que uma mulher não tem o direito de não querer se casar e ter filhos, ou de não ser vaidosa, estamos sendo machistas. Quando questionamos se fulana ou cicrana obteve êxito em sua carreira por sua beleza e não por sua competência e esforço, é uma atitude machista. Quando julgamos uma outra mulher pela quantidade de parceiros que teve, ou pelas roupas que veste, estamos a exercer uma atitude machista. Quando uma mulher acha inaceitável que seu marido/companheiro ganhe menos do que ela, ou que pensa que homem sensível é fraco ou pouco másculo, está a fazer um juízo de valor extremamente machista. E quando questionamos a nossa liberdade ou quando ignoramos os nossos anseios ou perspectivas com medo do que podem pensar de nós, não tenhamos a ilusão de que não é influência do machismo. É sim, e muito forte.


Dia desses, conversando com uma amiga, a mesma disse que quando era criança era ensinada a limpar a casa e seu irmão não; ele era influenciado a cuidar da irmã na escola. Em épocas de final de ano, o peso que paira sobre nós, mulheres, pelo fato de termos que planejar ceia, planejar presentes, roupas e etc., causa muito estresse pelo fato de sermos as únicas, tradicionalmente, que devemos nos preocupar com tais questões. A tradição romantiza o machismo fazendo com que as mulheres se sintam responsáveis por algumas questões que devem ser distribuídas para que toda a família contribua, inclusive os homens, sim.


Eu mesma assumo que já tive muitos pensamentos e falas machistas. Dentro da minha casa vamos nos policiando, aprendendo uns com os outros todos os dias. O interesse em estudar a história do feminismo fez com que eu repensasse as minhas atitudes, procurasse ter mais conhecimento e saísse da minha zona de conforto mental.


Por isso, convido você, leitora, a refletir se em algum momento de sua vida não reproduziu algum comportamento similar aos que mencionei acima. Acredito que sim. Mas aos poucos podemos ir mudando essas atitudes. Quantas mulheres machistas você conhece? Elas sabem que são machistas ou suas atitudes são tão enraizadas pela tradição que acreditam se tratar de um comportamento normal, correto?


 

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.


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