SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

Como assim, cultura do estupro?

26/02/2021 - Maria Betânia dos Santos Chaves

Será que existe uma cultura que influencia o estupro de mulheres no Brasil?

Cultura do estupro ou cultura da violação é uma expressão criada nos anos 1970 por feministas da segunda onda que começaram a se envolver em esforços de conscientização criados para educar o público sobre a prevalência do estupro, bem como conscientizar as pessoas de que a violência contra a mulher não é algo que deve ser aceito e muito menos naturalizado. Fazem parte desse contexto o assédio sexual (inclusive na rua e no transporte público), a “interpretação” do consentimento (achar que “quem cala, consente” ou então que a roupa que a mulher usa diz que ela quer ser violentada, “ela provoucou”), a objetificação da mulher (supervalorização da beleza e do corpo feminino, como visto frequentemente nas propagandas em que mulheres surgem seminuas, muitas vezes até sem rosto), a justificativa do comportamento do estuprador (uso de álcool, “excesso” de vigor sexual e o mais utilizado por eles, que é dizer que possui “transtornos mentais”) e, claro, o julgamento da vítima, que sempre é interpelada em relação a seu comportamento moral, ao fato de estar na rua àquela hora da noite e sozinha, a sua maquiagem, enfim...tudo é desculpa para o ato criminoso. Por vezes, em situações como essas, algumas mulheres acabam realmente se sentindo responsáveis, culpadas pela violência que sofreram e ficam com vergonha de denunciar.
Violência sexual é um medo pelo qual praticamente toda mulher já passou em algum momento da sua vida. E esse temor pode morar em situações corriqueiras, como ao entrar no ônibus de noite sozinha ou andar por uma rua mal iluminada e sem companhia. Agora, pense, será que esse medo deveria ser assim, algo quase naturalizado em nossa sociedade?
Cultura do estupro é justificativa do comportamento machista que enxerga a mulher como um ser humano de segunda classe, cujo corpo deve estar à disposição do homem e que só merece respeito se estiver vinculada a outro homem, ou seja, a violação sexual é pervasiva e normalizada devido a atitudes sociais sobre gênero e sexualidade.
Em uma cultura de estupro, o que se naturaliza são as diversas formas de violência associadas à sexualidade da mulher e seu direito ao próprio corpo e a seus desejos.
No ambiente de trabalho, é importante a divulgação de campanhas educativas que contribuam para a desconstrução da cultura do estupro, não permitindo que comportamentos tóxicos sigam se perpetuando.
O Brasil tem uma herança cultural patriarcal. No período colonial a mulher ficava submissa a regras que limitavam seu modo de agir e se comportar. Algumas dessas funções eram definidas pelo grau de posição social, raça e hierarquia familiar. Prevalecia a busca pela conservação dos padrões da moral cristã e da honra. No entanto, havia uma clara hierarquia social. Por exemplo, a sociedade escravagista tolerava o estupro de negras escravas e índias por senhores de engenho.
Combater a cultura do estupro implica estarmos atentos a toda e qualquer atitude cotidiana que agride a liberdade sexual da mulher. As duas palavras-chave que auxiliam nesse processo são: consenso e respeito. Precisamos respeitar mais a mulher enquanto indivíduo, enquanto ser humano que ela é. Com seus desejos, medos, ambições e sonhos. Ela não é um objeto a ser apreciado onde quer que esteja, ela não é um enfeite para vender produtos ou mostrar para as pessoas, ela não é obrigada a satisfazer vontades sexuais das quais ela não compartilha. A mulher livre é a mulher que não teme e é só isso que queremos!

 


Por Maria Betânia dos Santos Chaves.
 

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.


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