SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

Oito vereadores de São José do Rio Pardo indicam a prefeito fiscalização contra prática religiosa de religiões de matriz africana em cachoeira da cidade

13/01/2021

 O assunto sequer deveria existir. Sequer há como ser polêmico, inclusive. Para fins de conhecimento, a Constituição Federal determina igualdade e diz inviolável a liberdade de consciência e de crença, “sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias” (artigo 5º, inciso VI);

Em São José do Rio Pardo há a “cachoeira dos Nasser”, no rio Fartura. O local, realmente muito lindo, é frequentado por rio-pardenses para lazer há décadas. E, em seu entorno, há estrada e trilhas com locais que são considerados apropriados para o exercício religioso de algumas religiões de matriz africana.


Como se vê nas fotos, tiradas hoje pela reportagem do DEMOCRATA no local, apenas se vê, no entrono de algumas trilhas, alguns equipamentos e restos de serviços religiosos que em nada atrapalham os que se aventuram a ali estar.

Autor da polêmica “indicação”, filho do ex-deputado Silvio Torres (PSDB), Henrique Gonçalves Torres (PSDB) é neófito na edilidade, alega ter invejável currículo internacional de formação em marketing (nas eleições apresentou apenas diploma da UNIP), mastermind, hipnólogo e gerente da rádio e do jornal da família Torres (Gazeta do Rio Pardo). Portanto, perceba-se, não é alguém que se “equivoca” ao escrever, muito pelo contrário.

A “indicação” é documento que sugere providências ao prefeito, sem obrigar o prefeito sequer a resposta. Mas a indicação acabou esbarrando em um assunto inaceitável, de intolerância religiosa, ainda que velada em parte.

Diz o jejuno edil em seu texto: “Indico na forma regimental ao prefeito municipal, Sr. Márcio Callegari Zanetti, providenciar junto ao setor responsável uma fiscalização mais intensa na região onde fica a “Cachoeira dos Nasser” Ocorre que há tempos o local acumula lixo deixado por visitantes e até mesmo praticantes de atividades religiosas, o que espanta turistas e envergonha o município.” (o grifo é da matéria)

Observando o texto, termina o edil dizendo que “até mesmo praticantes de atividades religiosas, o que espanta turistas e envergonha o município”.

Embora não tenha mencionad na indicação, a única prática religiosa que se dá no local, e deixa vestígios, são as de matriz africana. Dizer que a prática de tais religiões devam ser objeto de fiscalização por potencial de espantar turistas e envergonhar o município é um absurdo absolutamente incompatível com o próprio espírito democrático e republicano de nossos dias.


Dizer que a prática religiosa traz vergonha ao município, independente de qual prática se fale, já é algo por si só ofensivo.

Imagine-se todas as oferendas para Iemanjá nas praias do Brasil? No Rio de Janeiro, não é algo tratado como vergonha, mas explorado exatamente por seu potencial turístico! Como se vê pelas fotos anexas, pouca coisa resta da prática religiosa feita no local, algumas velas queimadas, algumas vasilhas, uma pimenta sobre um tijolo.

Podemos, todos, conviver pacificamente e sem ataques como esse, à religião dos outros. Foi-se o tempo em que católicos “tradicionais” iam às escondidas e à sorrelfa em terreiros e em cachoeiras, como esta, levar despachos e praticar a religião que, oficialmente, desprezava. As religiões de matrizes africanas merecem nosso respeito, e qualquer ataque ao direito da livre expressão de qualquer religião é um ataque à liberdade de qualquer ser humano, em qualquer lugar.

E, por falar em turismo, o vereador Henrique Torres foi secretário de Turismo, inclusive no meio político se comenta que o ex-prefeito João Batista Santurbano só criou o cargo para acomodar o então filho do deputado. Quando Secretário não tomou qualquer medida para “limpeza” ou providência quanto à referida cachoeira. Soa estranho, agora, na oposição ao governo eleito, vir com esta preocupação.

Em nossos dias, quando 8 vereadores pedem fiscalização contra prática de religião (qualquer que seja, irrelevante qual seja), é algo que precisa ser discutido pelo sociedade. Antes que o vereador, católico, venha se levantar contra cultos evangélicos ou pedir fiscalizações contra centros espíritas.

A intolerância é abjeta, nojenta, inaceitável e inconstitucional.

Espera-se da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo um reposicionamento e desculpas públicas, inclusive de seu presidente que também assinou o infame documento.

Sem desculpas de “não haver entendido” ou “não ser a intenção”. Assinado o documento por médico, professor, um mastermind, um comunicador e outros representantes da sociedade rio-pardense com esse nível de preconceito de caráter religioso, espera-se ainda uma providência por parte do Ministério Público.

DEMOCRATA reitera seu caráter republicano e defende a liberdade da expressão religiosa como liberdade fundamental e inviolável e repudia com veemência a alegação de que a prática de qualquer religião possa ser uma vergonha para a cidade de São José do Rio Pardo.

 

Como apenas o vereador Henrique Torres assinou de forma identificada a indicação, e os vereadores assinaram mas não carimbaram as assinaturas, para verificar quem assinou o advogado de DEMOCRATA buscou documentos assinados pelos vereadores em seus processos de registro de candidatura, encontrando os autores da façanha.


Assinaram o documento os vereadores

Rafael Kocian (Presidente - REDE)

Toco Quessada (PSL)

Eduardo Ramos (PL)

Gabriel Navega (PTB)

Henrique Torres (PSDB)

Moraci Ballico (PDT)

Paulo Sérgio Rodrigues (Paulão da Rádio - PSDEB) e 

Romano Cassoli (DEM)

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