SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34

A tesoura de João Dória

13/03/2021

Os mais antigos lembra-se dos anos de regime militar, em que uma opinião contra o governo dada em um bar à tarde rendia visita da polícia em casa, à noite.

Muitos foram abordados assim, levados para as sedes das Delegacias de Ordem Política e Social, o DOPS. Nem todos voltavam para suas casas.

Voltar as forças armadas e a estrutura militar contra o próprio povo sempre foi algo, no mínimo, polêmico.

A estrutura do estado serve, em primeiro momento, para assegurar condições de dignidade para todos, acesso a saúde, educação, segurança, transporte, et cetera.

A Pandemia de Covid-19 está assolando o mundo e, verdade seja dita, vários governos estão lidando com a questão a partir de experiências medievais com a peste, outros com seguidas tentativas de acerto-e-erro.

Sequer os sanitaristas e epidemiologistas conseguem traçar uma linha de enfrentamento à pandemia eficaz.

Some-se isso a um grupo razoável de pessoas que tem uma necessidade inexplicável de estar a todo tempo falando e defendendo algum ponto de vista, opiniões, ainda que tais sejam totalmente desprovidas de nexo causal com qualquer informação científica. Vão daí desde os terra-planistas até os que são contra o uso de máscaras.

Assim, com informações “sujas”, sem parâmetros confiáveis e, por vezes, defendendo pontos de vista oriundos de meras opiniões políticas (se tal político disse assim, faço assado) que as políticas públicas de enfrentamento ao Covid-19 estão se desenhando no país.

No estado de São Paulo o governador João Dória está mostrando um notável despreparo para lidar com a questão.

A questão da vacina foi usada politicamente. E até agora, acreditem, não há estudos científicos que assegurem claramente a eficácia das vacinas ou mesmo a duração de sua imunização, quando esta ocorre.

A CoronaVac/Butantan tem eficácia alegada em perto de 50%, ou seja: metade das pessoas que foram vacinadas não serão imunizadas.

Nesse quadro, já terrível, entram em cena as novas cepas, com maior virulência e mais letais para mais jovens. O quadro, óbvio, de ruim evolui para desgraçadamente pior.

Neste exato momento que a falta de um estadista é sentida. Falta de um líder político capaz de compreender as necessidades do povo, concatenar validamente causas e efeitos e, a partir de um nexo causal minimamente aceitável, propor soluções.

João Dória deixa a impressão que seus planos políticos de ascender ao Palácio do Planalto podem estar acima de sua atuação como governador do estado.

Se antes o fechamento do comércio se deu em condições outras, com excesso de leitos para contaminados, com auxilio emergencial, suspensão de contratos de trabalho, com subsídio para salários, diferimento de impostos, agora a situação é absolutamente outra.

Agora o governador decreta a fase vermelha, fechando o comércio varejista de rua nas cidades da região, sem qualquer contraprestação ou auxílio.

Agora João Dória somente retira dos empresários a possibilidade de trabalhar, mantendo-se as obrigações trabalhistas e tributárias, sem falar nas próprias da atividade comercial (fornecedores, aluguel, etc)

Milhares de pequenos comerciantes estão, se mantida esta decisão em seu formato anunciado, fadados a falência.

Aparentemente esquecendo que essa classe empresarial e os trabalhadores não tem como deixar de comer e morar nesse período. Que tem de pagar funcionários, que também dependem de seus salários para sustentar suas famílias.

E, não satisfeito de impor uma carga absolutamente superior à qual qualquer um pode suportar, Dória passa a utilizar o aparelho do estado, voltado para a segurança pública e paz social, como instrumentos de repressão voltados contra o próprio povo.

Como a conhecida estratégia das “tesouras”, próprias do chamado “Socialismo Fabiano” que no Brasil vem representado pelos Sociais-Democratas, Dória usa a Polícia Militar para reprimir os empresários que insistirem em trabalhar, tratados como criminosos, e o Ministério Público do estado de São Paulo como instrumento de dominação sobre os prefeitos que não se sujeitarem às regras draconianas impostas pelo governo central do estado.

A polícia militar, por um lado, não tem opções. A própria condição de militar impõe-lhes obedecer. Hierarquia.

Os empresários, obviamente, estão indignados e muitas vezes não irão bem reagir a abordagem policial. Os conflitos, que serão crescentes, são questão de tempo.

A surpresa é o Ministério Público. Este DEMOCRATA tem falado há tempos sobre a necessidade de nova regulamentação das atribuições do órgão e de uma regulamentação clara de direitos e obrigações dos promotores, inclusive com uma séria corregedoria externa e severíssima punição aos que se excederem.

Com o episódio da pandemia, o caráter de atuação política do órgão acaba se tornando mais claro.

O próprio governador já informou que determinou ao procurador geral que os promotores de justiça processem os prefeitos que não se alinharem.

Ora, o Ministério Público deveria defender a sociedade, não a política ou mesmo o governador.

Um Ministério Público realmente independente não se sujeitaria a ser azorrague do governador contra os prefeitos eleitos pelo povo das cidades.

Um MP independente questionaria o próprio governador, afinal como o empresariado paulista poderá exercer os direitos constitucionais mais primários como direito ao trabalho e à dignidade da pessoa humana, que chegam a seus funcionários, sem poder trabalhar? Certamente questionaria por que, sem qualquer estudo técnico, concreto, que vincule a atividade do pequeno comércio varejista de rua a aumento de casos de Covid-19, esta categoria é penalizada tão duramente. 

Editorial publicado originalmente na versão impressa de DEMOCRATA, Edição 1658 de 6/3/2021, Pag. 3

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