SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34



Precisamos falar sobre violência obstétrica

03/12/2020 - por Maria Betânia dos Santos Chaves

Já perdi a conta de quantas histórias de parto que ouvi. Sempre tem uma mãe que gosta de contar como foi o dia em que deu à luz seu bebê. Eu ainda não passei por esse momento, mas acredito que seja algo inesquecível e único para toda mulher. O que se passou, quem estava lá, como se sentiram. Com tristeza admito que parte das histórias tem em algum ponto (ou em grande parte) do enredo exemplos de falta de respeito, coisas que a mulher não sabia o que eram, “chatices” ou mesmo trauma. Quase todas as histórias têm traços de violência obstétrica, porém, pelo fato do assunto ser pouco abordado e pouco conhecido, muitas nem sabem que a situação que passaram tem um nome. E você sabe o que é violência obstétrica?


Violência obstétrica é a violência institucional exercida contra a mulher, em relação à gravidez, podendo ser durante o parto e no pós-parto. Recusa de tratamento, negligência em relação às necessidades e queixas da mulher, humilhações verbais, falta de comunicação, violência física, práticas invasivas, uso desnecessário de medicação, intervenções médicas forçadas e não consentidas, desumanização e tratamento rude. Estes são alguns exemplos de como a violência obstétrica pode ocorrer. Pode ocorrer tanto em entidades públicas como privadas, e não é exclusividade reservada a mulheres que têm partos complexos e, tampouco, a mulheres que optaram por dar à luz fora do hospital. As cicatrizes emocionais que ficam são muitas e profundas.


Violência obstétrica é um tipo de violência de gênero. Além de ser um tipo de violência que só afeta mulheres pelo simples fato de que apenas elas passam pela experiência da gestação e do parto; atitudes desrespeitosas podem estar relacionadas a esteriótipos do que uma mulher deveria ou não fazer. Profissionais de saúde podem se sentir na posição de “ensinar uma lição” a uma determinada mulher que foge de uma determinada “normalidade aceitável”.
O termo Violência Obstétrica é utilizado oficialmente em textos na legislação de ao menos três países latino-americanos. O primeiro país a aprovar uma lei que inclui o uso do termo foi a Venezuela, seguido então pela Argentina e, logo depois, pelo México.


No Brasil não há atualmente uma legislação federal específica contra a violência obstétrica, mas há iniciativas estaduais e municipais. Exemplos recentes são o caso de Alagoas, Rio Branco e Curitiba.


Os direitos humanos de uma mulher durante a sua gravidez, devem protegê-la mesmo que esta tenha necessidades complexas; independentemente das escolhas que queira fazer; independentemente do parto seguir o curso esperado. E por isso e por muito mais precisamos nos unir, estarmos todas juntas nessa missão. Hoje pode ser eu, amanhã você, entretanto podemos fazer com que isso acabe e passe a não acontecer com nenhuma de nós.


As gestantes são mulheres adultas, com capacidade e inteligência para saberem o que querem ou não querem que aconteça com o seu corpo. Não são meras incubadoras daqueles bebês.


É importante que a gestante esteja por dentro de tudo o que vai acontecer no dia do parto e realize um plano de parto. Independente do que um médico falou sobre como vai ser um parto, ela tem que pensar na maneira como quer fazer isso. Se quer acompanhante, se quer analgésico, se tem algum pânico, etc. Para a gestante é um momento que exige respeito e estudos mínimos para pensar nos menores detalhes. O momento do parto é algo único e precisa ser respeitado. Não podemos permitir que um dos dias mais significativos da sua vida se torne num dia de pesadelo.


São necessárias mudanças na cultura do parto. Precisamos de um ‘sistema’ que informe as gestantes da real necessidade de cada intervenção, sem omissões ou informações tendenciosas. É preciso que apoiemos umas às outras cada vez mais.


Se você foi vítima de violência obstétrica ou conhece alguma mulher que tenha passado por essa situação, denuncie. As denúncias podem ser feitas no próprio hospital que a atendeu; na Secretaria responsável pela instituição que a atendeu; nos Conselhos de classe – CRM quando a violência partir do médico e COREN quando a violência partir do enfermeiro ou técnico em enfermagem; ligando no 180 – Central de Atendimento à Mulher ou 136, que é o Disque-Saúde.


Durante algumas pesquisas encontrei na internet um mapa da violência obstétrica no Brasil. Consiste em uma plataforma em que mulheres podem enviar seus relatos de violência obstétrica para que sejam mapeados e o problema seja ilustrado de maneira mais clara. O mapa é gerenciado atualmente pela Associação Artemis, uma organização focada na promoção da autonomia feminina e erradicação da violência contra a mulher. Para quem quiser acessar, o link é <https://violenciaobstetrica.crowdmap.com/>, basta clicar
aqui.
 

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.

Mais artigos de Maria Betânia dos Santos Chaves

13/05/2021 - A origem do Dia das Mães


13/05/2021 - Síndrome do desamparo aprendido


13/05/2021 - Dia Nacional da Mulher


13/05/2021 - A pandemia gera retrocesso na busca por igualdade de gênero


17/04/2021 - O autismo no feminino


20/03/2021 - Leis que toda mulher precisa conhecer


13/03/2021 - Dia Internacional das Mulheres


06/03/2021 - Remate do tribunal da vergonha


26/02/2021 - Como assim, cultura do estupro?


13/02/2021 - Fórmulas sutis para alienar mulheres























Jornal Democrata
São José do Rio Pardo e Região
Whats 19 3608-5040
Tel.: 19 3608-5040

Siga-nos nas Redes Sociais

contato@jornaldemocrata.com.br